O descanso de Cristo e a casa de Maria | Dom Lucas Henrique Lorscheider

 


Liturgia Diária
Quarta-feira 2ª Semana do Advento
Bem-Aventurada Virgem Maria de Loreto, Memória

Queridos irmãos e irmãs em Cristo,

Hoje a Igreja nos dá a alegria de celebrar a memória facultativa da Bem-Aventurada Virgem Maria de Loreto, cuja devoção nos remete à Santa Casa de Nazaré — o lugar onde Maria viveu, onde o Verbo se fez carne, onde Jesus cresceu e onde o mistério da Encarnação ressoou no silêncio cotidiano. Celebrar Loreto significa contemplar o lar onde Deus escolheu habitar e recordar que a Encarnação transformou a realidade humana e santificou a vida ordinária.

E, providencialmente, as leituras de hoje falam justamente de força renovada, de descanso em Deus e da ternura do Senhor. Isaías anuncia que aqueles que esperam no Senhor “correm sem se cansar”; o salmo canta a misericórdia divina que cura, restaura e redenção oferece; e Jesus, no Evangelho, proclama uma das frases mais belas já ditas aos corações humanos:

“Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso.” (Mt 11,28)

No centro de tudo, está Maria de Loreto. Ela é a casa acolhedora onde Deus repousa, a mulher da confiança absoluta, a colaboradora resiliente da graça que ensina a esperar no Senhor e a descansar em Seu amor.

A liturgia nos coloca diante de um dos textos mais sublimes de todo o Antigo Testamento: o cântico da esperança do profeta Isaías.

Isaías faz uma série de perguntas retóricas:

“A quem me comparareis, para que eu lhe seja semelhante?” (v.25)

É como se Deus dissesse:
“Vocês se cansam, vocês se perdem, vocês vacilam. Eu, porém, sou eterno.”

Não se trata de colocar Deus distante, mas justamente o contrário:
a grandeza de Deus é garantia de Sua proximidade.

Porque Ele tudo pode, pode também nos carregar.
Porque Ele não se cansa, pode renovar nossa esperança.
Porque Ele é o Criador, pode recriar as forças perdidas dentro de nós.

Esta passagem do profeta nasce em meio ao desânimo do exílio. O povo estava fatigado, decepcionado, abalado espiritualmente — como muitos de nós hoje. Isaías proclama que Deus não se esquece, não abandona, não volta as costas ao Seu povo.

O profeta questiona a atitude humana:

“Por que andas dizendo: ‘Meu caminho está oculto ao Senhor’?” (v.27)

Nós também dizemos isso, ainda que não com palavras, mas com sentimentos:
— “Deus não vê minha luta.”
— “Deus não me escuta.”
— “Deus me deixou sozinho.”
— “Minha oração não chega ao céu.”

Mas Isaías responde com firmeza: Deus não esquece de ninguém.

E mais: Ele conhece as feridas que não mostramos a ninguém.
Ele vê o que ninguém vê.
Sua compaixão tem profundidade infinita.

Este versículo é um dos mais consoladores da Escritura:

“Os que esperam no Senhor renovam suas forças,
criam asas como águias,
correm sem se cansar,
caminham sem desfalecer.” (v.31)

Aqui está o coração desta leitura. “Esperar no Senhor” não é passividade, não é ficar imóvel: é entrar em sintonia com o ritmo de Deus.
É confiar no tempo divino.
É entregar o coração à vontade do Pai.
É viver com perseverança interior, mesmo quando tudo parece desfavorável.

A águia é símbolo de renovação porque troca suas penas quando envelhece. Isaías nos ensina que a esperança em Deus rejuvenesce a alma.

E onde isso se realizou plenamente?
Na Casa de Nazaré, celebrada hoje como Loreto, onde a esperança humana encontrou sua plenitude no silêncio de Maria.

O Salmo 102 é um hino à misericórdia. Ele descreve um Deus que:

  • perdoa todas as culpas,
  • cura todas as enfermidades,
  • resgata da morte,
  • coroa de amor e de compaixão.

O salmista faz um convite interior:
“Bendize, ó minha alma, ao Senhor.”

Maria de Loreto viveu exatamente isso. Sua alma bendizia o Senhor a cada dia, no trabalho, nas tarefas simples, nas dores e alegrias da vida familiar. O Magnificat é o eco mais perfeito deste salmo. Assim como o salmista, Maria sabia que Deus é:

  • lento para a ira,
  • rico em bondade,
  • fiel em Suas promessas.

De fato, a Casa de Loreto é o lar do “sim” de Maria, lugar onde Deus encarnou Sua misericórdia.

E, finalmente, chegamos a um dos textos mais consoladores de todo o Evangelho.

Jesus proclama:

“Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso.”

Estas palavras são, por si só, uma homilia inteira.

“Vinde a mim todos...”
— os cansados,
— os exaustos,
— os decepcionados,
— os que carregam culpas,
— os que perderam ânimo,
— os que lutam contra enfermidades,
— os que enfrentam conflitos,
— os que se sentem fracassados.

Ninguém está fora do convite.
Ninguém está excluído do descanso de Cristo.

O jugo era uma madeira colocada sobre dois animais para arar a terra.
Tomar o jugo de Cristo significa unir-se a Ele, caminhar com Ele, partilhar Sua missão. E o que Ele diz?

“Meu jugo é suave e meu fardo é leve.”

Não porque a vida cristã seja menos exigente, mas porque Ele carrega conosco.

O jugo de Cristo não pesa porque Ele está no outro lado da trave.
Ele toma nossa carga, nos sustenta e dá sentido às dificuldades.

Não há descanso sem mansidão.
Não há paz sem humildade.
Não há leveza sem entrega.

Cristo nos convida a aprender Seu ritmo, Sua respiração, Seu coração.

E quem aprendeu isso melhor do que Maria?
Ela é a mulher mansa, a serva humilde, a que guardava todas as coisas no coração. A Santa Casa é a escola da mansidão, da aceitação e do abandono confiante.

A devoção a Loreto nasce do grande mistério da Encarnação. A Casa Santa de Nazaré, segundo a tradição, teria sido milagrosamente transportada por anjos para proteger o local sagrado das invasões — algo que, historicamente, pode ter sido realizado por cristãos da época para preservar suas pedras, e teologicamente sempre interpretado como um movimento providencial de Deus.

Mas mais importante que a questão histórica é seu significado espiritual.

Ali o Verbo se fez carne.
Ali Maria disse: “Faça-se.”
Ali Jesus viveu sua infância.
Ali Deus habitou entre nós.

A Casa Santa mostra que Deus entra na esfera humana não apenas de modo espiritual, mas físico, concreto, doméstico, cotidiano. Ele não tem nojo de nossas casas, de nossas rotinas, de nossos cansaços, de nossas imperfeições.
Ele entra para transformar tudo de dentro.

Se Loreto é símbolo da Casa Santa, Maria é a casa verdadeira onde Deus encontrou repouso. Santo Agostinho diz:

“Antes de conceber Jesus no corpo, Maria o concebeu no coração.”

Ela é a primeira morada do Verbo.
Ela é a primeira Igreja.
Ela é a primeira tenda do Altíssimo.

E nós somos chamados a ser como ela.

Vivemos numa sociedade exausta.
Exausta por excesso de informação,
por excesso de compromissos,
por excesso de exigências,
por excesso de cobrança.

O descanso que o mundo oferece é superficial:
— entretenimento,
— distração,
— fuga,
— prazeres momentâneos.

Tudo isso deixa o coração mais cansado.

Jesus oferece um descanso espiritual, afetivo, interior, sacramental.
E Ele o faz de modo concreto:

  1. Descanso para a mente: “Venham a mim” — confiem.
  2. Descanso para o corpo: “Eu vos darei descanso” — no presente.
  3. Descanso para a alma: “Porque sou manso e humilde” — ensinamento do coração.

A Santa Casa é símbolo deste descanso: um lar simples, pobre, silencioso, onde Deus habita na paz.

À luz de Isaías, do salmo, do Evangelho e de Loreto, como viver estas verdades hoje?

Isaías diz que até os jovens se cansam, mas Deus renova as forças dos que esperam Nele.
Hoje, muitos colocam sua esperança em:

  • produtividade,
  • dinheiro,
  • reconhecimento,
  • projetos pessoais,
  • afetos humanos,
  • controle de situações.

Tudo isso cansa.
Mas quem coloca sua esperança no Senhor se renova diariamente.

Loreto nos lembra que também nós temos uma “casa interior”:
— a mente,
— o coração,
— a consciência,
— o espaço onde Deus quer habitar.

Quantas vezes nossa casa interior está:

  • cheia de ruídos,
  • desorganizada,
  • contaminada por mágoas,
  • marcada por ressentimentos,
  • habitada por temores,
  • ocupada por ansiedades.

Maria nos ensina a arrumar este lugar, tornando-o apto à visita do Altíssimo.

O Evangelho é claro: ir até Jesus.
Não há outra fonte de descanso.
É necessário:

  • rezar com profundidade,
  • cultivar silêncio interior,
  • aproximar-se dos sacramentos,
  • confessar-se,
  • adorar o Santíssimo.

É no encontro com Ele que a fadiga dá lugar à paz.

Nosso mundo premia a agressividade, a autopromoção, a competição.
Cristo oferece o contrário: mansidão e humildade.
Quem é manso não reage com violência;
quem é humilde não assume pesos que não são seus.

Há pessoas carregando jugos que não lhes pertencem:

  • culpas antigas,
  • expectativas impossíveis,
  • responsabilidades abusivas,
  • comparações destrutivas,
  • medos paralisantes.

O jugo de Cristo é leve porque é o jugo do amor.

A memória de Loreto nos convida a olhar para nossos lares:
— são lugares de oração?
— há espaço para Deus na rotina familiar?
— como tratamos uns aos outros?
— nossas casas refletem a mansidão de Cristo?

A Santa Casa de Loreto inspira a transformar o lar doméstico num ambiente de paz, perdão e ternura.

Maria compreende melhor do que ninguém o cansaço humano.
Ela viveu as dificuldades da vida simples, as incertezas, as dores da maternidade, as provas da fé.
E, sobretudo, ela aprendeu a descansar em Deus.

Ela é a mulher que:

  • espera no Senhor,
  • confia sem reservas,
  • acolhe o inesperado,
  • entrega tudo ao Altíssimo.

E é também a mãe que nos acolhe em sua casa espiritual e nos ensina a dizer:

“Bendize, ó minha alma, ao Senhor!”

Ela nos conduz ao descanso de Cristo.
Ela nos apresenta ao Pastor que renova as forças.
Ela nos mostra o caminho para a mansidão e a humildade.

Hoje, nesta memória de Loreto, somos convidados a entrar espiritualmente na Casa onde:

  • o Verbo se fez carne,
  • Maria acolheu o plano de Deus,
  • Jesus cresceu em sabedoria,
  • o céu tocou a terra.

Ali encontramos o descanso prometido por Cristo.

Que, ao sairmos desta celebração, possamos:

  • renovar nossas forças, como Isaías prometeu,
  • bendizer o Senhor com todo o nosso ser, como no salmo,
  • ir até Jesus e receber Seu alívio, como no Evangelho,
  • e viver sob o olhar materno da Virgem de Loreto.

Que Maria, casa viva do Senhor, seja nossa intercessora, nosso modelo e nossa força.

Amém.

 LUCAS HENRIQUE LORSCHEIDER

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