Amados irmãos e irmãs em Cristo,
celebramos hoje a Memória facultativa de São Dâmaso, Papa, um dos grandes pontífices da antiguidade cristã, exemplo luminoso de fidelidade, zelo pela pureza da fé e dedicação à Palavra de Deus. No seu tempo, a Igreja era profundamente marcada por controvérsias doutrinais, cismas, perseguições veladas e disputas teológicas que exigiam coragem e firmeza. Dâmaso foi, então, um pastor segundo o Coração de Cristo: corajoso na defesa da verdade, manso na caridade, firme na disciplina e devoto apaixonado da Sagrada Escritura.
É significativo que hoje as leituras proclamadas nos falem justamente sobre:
- A presença consoladora de Deus no meio da fraqueza de seu povo (Isaías 41),
- A bondade misericordiosa do Senhor para com todos os seus filhos (Salmo 144),
- E a força do Reino que avança apesar da violência e da oposição (Mateus 11).
Todas essas temáticas iluminaram o pontificado de São Dâmaso e continuam a iluminar nossa vida e nossa missão como cristãos neste tempo tão marcado por incertezas espirituais, relativismos e ataques velados ou explícitos à fé.
Hoje, portanto, somos convidados a meditar profundamente nesta verdade: Deus está conosco, fortalece-nos, sustenta-nos, guia-nos e nos envia, assim como enviou profetas, apóstolos, mártires, doutores e pastores ao longo de toda a história da salvação.
A primeira leitura começa com uma frase que deveria ecoar em nosso coração como consolação permanente:
“Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tomo pela mão direita e te digo: ‘Não temas, eu te ajudarei’.”
Irmãos, essas palavras não são um poético consolo distante. Elas expressam a atitude concreta de Deus diante de seu povo:
Deus não fala de longe. Deus TOMA pela mão.
E por que Deus nos toma pela mão?
Porque Ele vê nossa fragilidade com realismo.
Porque sabe que caminhamos em um mundo espiritualmente hostil.
Porque reconhece que sozinhos não conseguimos perseverar.
Quando Isaías escreve esse oráculo, o povo se encontra desanimado, vulnerável, exilado. Humanamente falando, tudo parecia perdido.
Mas é justamente aí que Deus se revela como Aquele que transforma o verme em instrumento poderoso:
“Não temas, pequeno verme de Jacó… eu te ajudarei.”
Que linguagem forte! O “verme” é a imagem do ser que aparentemente não tem força, que não tem defesa, que é vulnerável diante de tudo. Assim Israel se sentia — e assim muitas vezes nós também nos sentimos.
Quantas vezes, amados, olhamos para os desafios do mundo, para a grandeza das tentações, para a dureza da evangelização, para o relativismo cultural, para o crescimento da indiferença religiosa e nos sentimos impotentes, pequenos, fracos, quase irrelevantes?
Quantas vezes sentimos que a fé parece desaparecer, que nossa família parece desmoronar, que nossos esforços espirituais parecem inúteis?
Pois Deus proclama hoje a mesma palavra que proclamou ao antigo Israel:
“Eu te ajudarei.”
Não se trata de uma promessa vaga, mas de uma intervenção real. Deus promete transformar o deserto em manancial, a terra seca em jardim, a esterilidade em fecundidade.
A ação de Deus, portanto, não é apenas protetora — ela é criativa. Deus não apenas nos salva do perigo; Ele nos recria para uma missão.
Tudo isso encontra eco profundíssimo na vida de São Dâmaso, Papa. Em seu pontificado (366-384), a Igreja enfrentava divisões internas, heresias e grandes tensões políticas. Humanamente falando, o momento era de instabilidade, confusão, incerteza. Mas Dâmaso confiava inteiramente neste Deus que toma pela mão. Ele não se deixou intimidar pelos conflitos nem se entregou ao desânimo: soube permanecer firme, soube discernir, soube conduzir o povo.
Sua autoridade vinha desta certeza:
Deus é quem sustenta a Igreja. Deus é quem a conduz. Deus é quem a protege.
O Salmo 144 reforça a imagem do Senhor como aquele que sustenta, cura e restaura:
“O Senhor é bom para todos; sua ternura abraça toda criatura.”
Essa é a base da nossa esperança.
O mundo pode ser hostil.
O futuro pode ser incerto.
As forças contrárias ao Evangelho podem ser agressivas.
Mas o Senhor é bom e sua ternura abraça todas as criaturas.
É impressionante como a teologia do Salmo se articula com a missão pastoral da Igreja ao longo dos séculos.
Não evangelizamos por obrigação burocrática; evangelizamos porque cremos profundamente que Deus é bom.
Não defendemos a verdade por imposição; defendemos porque sabemos que a verdade liberta.
Não permanecemos na fé por medo do castigo; permanecemos porque experimentamos a misericórdia que transforma.
São Dâmaso compreendia isso profundamente. Foi sob seu pontificado que se incentivou a valorização das Sagradas Escrituras, a veneração dos mártires e a organização litúrgica romana. Ele acreditava que a beleza, a verdade e a oração eram os caminhos pelos quais a bondade divina se revelava ao povo.
Como pastor, ele queria que todos experimentassem essa misericórdia. Por isso rezava, ensinava, legislava e governava com firmeza, mas também com ternura pastoral.
O mesmo deve acontecer conosco.
A fé não pode ser vivida como imposição rígida, mas como encontro com um Deus que abre portas, cura feridas, liberta consciências, reconstrói histórias.
A bondade divina é o fundamento de tudo o que somos.
No Evangelho, Jesus pronuncia palavras que sempre exigem reflexão profunda:
“O Reino dos céus sofre violência, e são os violentos que o conquistam.”
Essa violência não é agressão, não é ódio, não é destruição.
É a violência espiritual da decisão, da entrega radical, da ruptura com o pecado, da firmeza diante das provações.
É a violência da conversão, do desapego, da renúncia ao conforto, da coragem de remar contra a corrente.
Por isso Jesus apresenta João Batista como modelo.
Porque João não viveu uma fé superficial, não viveu uma religião decorativa. Ele pagou o preço do testemunho. Viveu a verdade até as últimas consequências.
São Dâmaso, como sucessor de Pedro, também viveu essa “violência espiritual”:
- enfrentou heresias,
- corrigiu desvios,
- reafirmou a ortodoxia,
- governou com coragem num tempo de tensões.
Sua firmeza não era agressiva, mas era decidida. Ele não se acovardou. Ele não se omitiu. Ele não buscou agradar o mundo.
O Evangelho de hoje nos questiona:
onde está nossa ousadia?
Onde está nossa capacidade de renunciar ao pecado?
Onde está nossa firmeza na defesa da fé?
Onde está nossa coragem de colocar Cristo como prioridade absoluta?
O Reino exige entrega total.
Não há lugar para tibiezas, para metade da alma, para cristianismo morno.
A Palavra de Deus hoje nos coloca diante de três pilares espirituais que precisamos retomar com urgência:
Vivemos em um tempo de inseguranças:
- crises econômicas,
- instabilidade moral,
- perda de referenciais éticos,
- relativismo religioso,
- avanços tecnológicos que desestabilizam a interioridade,
- cultura de descartabilidade,
- confusão identitária,
- ataques à família e à fé cristã.
É fácil sentir-se “pequeno verme de Jacó”.
Mas Deus nos toma pela mão.
E Ele nos diz hoje:
“Não temas, eu te ajudarei.”
Essa certeza precisa sustentar nosso cotidiano:
- quando enfrentamos dificuldades familiares,
- quando lutamos com pecados persistentes,
- quando nos identificamos com cansaço espiritual,
- quando sentimos solidão ou perda de sentido,
- quando somos pressionados pelo mundo a abandonar valores cristãos.
Deus não abandona seus filhos.
Nunca abandonou Israel.
Nunca abandonou a Igreja.
Nunca nos abandonará.
O mundo contemporâneo está marcado por:
- agressividade,
- polarizações,
- discursos de ódio,
- divisões violentas,
- intolerâncias,
- feridas emocionais profundas.
A resposta cristã não pode ser aumentar a violência.
Não pode ser combater agressão com agressão, crítica com crítica, insulto com insulto.
O Salmo nos lembra:
“O Senhor é bom para todos; sua ternura abraça toda criatura.”
Nosso testemunho deve tornar visível essa bondade.
Onde houver ferida, sejamos bálsamo.
Onde houver medo, sejamos esperança.
Onde houver pecado, sejamos misericórdia.
Onde houver trevas, sejamos luz.
Cada cristão é chamado a ser sacramento da bondade de Deus no mundo.
A fé não é um ornamento cultural.
A fé é uma decisão diária.
Uma luta interior.
Uma escolha constante pela verdade, pela pureza, pela justiça e pela santidade.
No mundo de hoje, o cristão precisa dessa “violência interior”:
- para dizer NÃO ao pecado,
- para renunciar à cultura da vaidade,
- para rejeitar a pornografia, a infidelidade, a mentira, a soberba,
- para manter pureza em um ambiente que banaliza o corpo,
- para defender a vida diante de ideologias destrutivas,
- para transmitir a fé aos filhos em um ambiente hostil.
Não se trata de violência contra os outros — mas contra o pecado que tenta nos destruir.
Precisamos recuperar, como João Batista e São Dâmaso:
a coragem da verdade, a força da santidade, a firmeza da fé.
Quais iluminações podemos tirar da vida desse grande Papa?
Foi sob seu pontificado que se incentivou a tradução da Bíblia para o latim, que mais tarde seria realizada por São Jerônimo: a famosa Vulgata.
São Dâmaso entendia que sem a Palavra, o povo se perde.
Também nós precisamos retornar às Escrituras:
- leitura diária,
- meditação,
- estudo,
- oração,
- partilha comunitária.
A fé cresce quando alimentada pela Palavra.
Em tempos de heresias, ele não se calou.
Foi firme, claro e corajoso — sem arrogância e sem comprometer a caridade.
Hoje também precisamos de católicos que saibam explicar, defender e viver a doutrina da Igreja com maturidade e amor.
Dâmaso valorizou a liturgia romana e a dignidade do culto.
Para ele, a beleza da liturgia educava os fiéis e elevava a alma.
Hoje, em meio a distrações e banalizações, somos chamados a recuperar esse senso de sacralidade.
Mesmo diante de conflitos internos, perseguições políticas e divisões, jamais perdeu a esperança.
Porque sua confiança estava naquele Deus que diz:
“Eu sou o Senhor que te toma pela mão direita.”
Ele é exemplo de perseverança, de serenidade e de coragem.
Queridos irmãos, neste dia dedicado a São Dâmaso, a Palavra de Deus nos entrega três convicções profundas:
Deus não nos abandona — Ele nos toma pela mão.
Aqui está a raiz da nossa confiança.
Deus é bom para todos — e sua ternura deve ser visível em nossa vida.
Aqui está a raiz da nossa missão.
O Reino exige coragem — a violência espiritual da santidade.
Aqui está a raiz da nossa conversão.
O mundo atual precisa urgentemente de cristãos que vivam essas três dimensões:
- fiéis na confiança,
- misericordiosos no amor,
- firmes na santidade.
Que São Dâmaso interceda por nós!
Que sua coragem inspire nossa vida cristã!
Que sua fidelidade à Palavra ilumine nossa jornada espiritual!
Que sua firmeza pastoral fortaleça nossa missão!
Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, aquela que com ternura acompanha todos os que permanecem fiéis, nos ajude a viver plenamente tudo aquilo que hoje meditamos.
Amém.
✠ LUCAS HENRIQUE LORSCHEIDER
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