Cristo cura através da Igreja | Dom Lucas Henrique Lorscheider

 


Liturgia Diária
Sábado 1ª Semana do Advento
São Nicolau, bispo, Memória

Amados irmãos e irmãs em Cristo,

A liturgia da Palavra que o Senhor hoje nos entrega ressoa como um hino à sua compaixão. Deus se revela como Aquele que cura, guia, instrui, sara, renova e envia os seus. E, de maneira muito providente, celebramos hoje a memória facultativa de São Nicolau, Bispo, pastor segundo o coração de Cristo, cuja vida manifesta justamente aquilo que o Evangelho descreve: o zelo pastoral que vê as necessidades do povo e se apressa em socorrê-lo.

A imagem que surge tanto no profeta Isaías quanto no Evangelho é profundamente medicinal: Cristo é o Médico, aquilo que a tradição sempre chamou de Christus Medicus, o médico das almas e dos corpos, aquele que, movido de compaixão, “cura todas as enfermidades e doenças do povo” (Mt 9,35). O mesmo Cristo, médico, envia discípulos para continuarem a obra de cura, libertação e anúncio. A liturgia de hoje é, portanto, um convite à esperança, à confiar no Deus que sempre guia, e ao mesmo tempo um chamado a sermos colaboradores dessa obra salvadora.

Percorramos juntos as leituras, permitindo que elas ressoem dentro de nós como uma palavra de consolo, de correção e de envio.

A primeira leitura do profeta Isaías é um dos textos mais belos sobre a ternura de Deus:

“O Senhor te dará pão na angústia e água na tribulação… teus olhos poderão ver o teu mestre. Teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra: ‘Este é o caminho, segui por ele’” (Is 30,20-21).

Aqui está uma revelação essencial da fé bíblica: Deus não abandona o seu povo, mesmo quando este se desvia, mesmo quando insiste em seus próprios caminhos. O contexto do texto é importante: Israel havia colocado sua confiança em alianças políticas e militares, especialmente no Egito, para se proteger da ameaça assíria. Mas Deus, por meio do profeta, diz: “Vós procurastes socorro onde não há socorro”.

E então, no ápice da denúncia, vem a grande promessa:
“O Senhor terá piedade ao ouvir o teu clamor. Ele te responderá.”

Notemos a pedagogia divina:

  • não promete que não haverá angústia;
  • não promete ausência de tribulação;
  • mas promete Sua presença: pão no sofrimento, água na aflição.

E mais: “Teus olhos verão o teu Mestre”.
É uma frase de extraordinária força espiritual. O povo, que na dor se sentia abandonado, finalmente verá seu Mestre, não oculto, mas próximo, pedagogo, guia. É a promessa da revelação plena.

E Deus também se apresenta como Aquele que ensina interiormente:

“Teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma voz: ‘Este é o caminho, segui por ele’”.

Não é apenas orientação externa; é direção interior. É o Espírito Santo, que o Novo Testamento identifica como o grande Mestre secreto dos corações.

Depois vem a imagem agrícola, de abundância:

“O Senhor dará chuva para a semente… o trigo será abundante e saboroso… haverá rios correndo por todos os montes…” (Is 30,23-25)

A salvação é descrita como renovação da terra, cura das feridas, fecundidade depois da aridez. É a promessa da restauração total — pessoal, comunitária e até cósmica.

Ao celebrar essas palavras, nosso coração se abre para contemplar o modo como Deus age também hoje. Quantas vezes confiamos mais em estratégias humanas, em alianças frágeis, em seguranças falsas — e, no entanto, o Senhor permanece fiel, disposto a nos conduzir de volta ao caminho. A pedagogia divina não é punitiva; é medicinal. Ele permite que vejamos a fragilidade dos caminhos errados para que descubramos novamente o único caminho seguro: sua Palavra.

Essa Palavra que diz: “Este é o caminho” ecoa com particular beleza na vida de São Nicolau, aquele que, segundo a tradição, se tornou guia para tantos fiéis. Sua generosidade, sua proximidade com os pobres e sua firmeza doutrinal fazem dele um modelo daquilo que Isaías profetiza: um pastor que indica a estrada, consola, cura e mantém o rebanho unido na verdade.

O Salmo 146 retoma a mesma lógica amorosa da profecia. Ele apresenta um Deus que não apenas reina, mas cuida:

“O Senhor reconstrói Jerusalém, reúne os dispersos de Israel. Cura os corações atribulados e lhes pensa as feridas.” (Sl 146,2-3)

Este salmo é um canto de ressurgimento. Jerusalém havia sido destruída; o povo, deportado; a esperança, quase perdida. Mas Deus reconstrói. Deus reúne. Deus cura. A fé bíblica não é uma teoria sobre o absoluto: é a experiência concreta de um Deus que age na história, que restaura aquilo que parece condenado à ruína.

Depois, o salmo passa da cidade para o interior humano:

“Cura os corações atribulados.”

Ele, que conta as estrelas do céu, inclina-se para tocar as feridas do espírito humano. O Infinito torna-se próximo. O Todo-poderoso torna-se terno.

E o refrão — tomado de Isaías 30 — reforça a ideia:

“Feliz de quem espera no Senhor.”

É a síntese das leituras: quem espera no Senhor não será decepcionado. O mundo promete e não cumpre; os ídolos iludem; as falsas seguranças ruem; mas o Senhor não falha.

Aqui também vemos um ponto profundo de ligação com São Nicolau. Ele é tradicionalmente recordado como homem de profunda misericórdia, mas também como alguém que compreendia que a verdadeira esperança não está no poder, mas na confiança no Senhor. Muitas das histórias sobre sua vida, embora de caráter lendário, revelam um traço espiritual real: seu coração totalmente entregue à providência de Deus e à caridade ativa. Assim, sua vida ecoa o próprio salmo: um pastor que cura, reconstrói e reúne.

O Evangelho de hoje é profundamente missionário. Ele começa descrevendo a atividade de Jesus — e termina descrevendo a missão daqueles que Ele envia.

Primeiro, contemplamos o próprio Cristo:

“Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda sorte de doença e enfermidade” (Mt 9,35).

Há aqui três verbos que resumem o ministério de Jesus:

  1. Ensinar – iluminar a mente.
  2. Pregando – anunciar a Boa-Nova, tocar o coração.
  3. Curar – restaurar o corpo e a alma.

A missão de Cristo é integral: Ele não salva apenas a alma, mas a pessoa inteira. Ele é o médico da totalidade do ser.

E então o Evangelho descreve a reação interior de Jesus:

“Vendo as multidões, encheu-se de compaixão, pois estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor.” (Mt 9,36)

A expressão grega usada por Mateus — esplagchnísthē — significa literalmente “foi comovido nas entranhas”. É o verbo que os evangelistas reservam para a misericórdia mais profunda de Cristo: um amor visceral, que nasce das profundezas do Seu ser. Este amor não é genérico: é concreto, é compassivo, é ativo.

É justamente por causa dessa compaixão que Jesus diz:

“A messe é grande, mas os operários são poucos. Pedi pois ao dono da messe que envie operários” (Mt 9,37-38).

Aqui está o fundamento de toda vocação cristã: a compaixão de Cristo ante a multidão ferida. Sem essa compaixão, não há evangelização verdadeira; há apenas estratégia, projeto humano, ativismo vazio. O missionário nasce do Coração de Cristo.

E então, no capítulo seguinte, Ele envia os Apóstolos:

“Chamando os doze, deu-lhes poder de expulsar espíritos impuros e de curar toda doença e enfermidade.” (Mt 10,1)

Notemos a ordem: Ele chama — Ele forma — Ele envia — Ele dá poder.
A missão nasce da intimidade com Cristo e se realiza pelo poder de Cristo. Não é obra nossa, é participação na obra d’Ele.

E qual é o conteúdo da missão?

“Ide às ovelhas perdidas da casa de Israel… Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar.” (Mt 10,6-8)

É uma missão de cura, ressurreição, purificação e libertação. Todos os sinais aqui citados são, ao mesmo tempo, reais e simbólicos: representam aquilo que Cristo quer fazer em cada pessoa.

  • Curar os doentes: tocar as feridas da humanidade, sarar o corpo e a alma.
  • Ressuscitar os mortos: despertar a fé, devolver a vida aos que perderam a esperança.
  • Purificar os leprosos: acolher os excluídos, integrar os descartados.
  • Expulsar os demônios: libertar do mal, das opressões espirituais, das forças que desfiguram a imagem de Deus no homem.

E, sobretudo, Jesus dá o princípio fundamental:
“De graça recebestes, de graça dai.”

Tudo é graça. Nada é mérito. Nada é propriedade. O missionário é um instrumento, não um protagonista; um servidor, não um proprietário do Reino.

O Evangelho de hoje, portanto, nos convida a examinar nossa própria postura como Igreja: estamos realmente movidos pela compaixão do coração de Cristo? Estamos conscientes de que nossa missão nasce da graça e deve ser vivida na gratuidade? Estamos, como São Nicolau, atentos às necessidades corporais e espirituais dos irmãos?

Celebrando a memória de São Nicolau, bispo de Mira no século IV, vemos como a vida dos santos se torna uma espécie de “quinto Evangelho”, isto é, um prolongamento vivo do Evangelho na história humana.

Sobre Nicolau, muitas tradições piedosas surgiram ao longo dos séculos, mas há um núcleo histórico seguro:

  • Foi bispo zeloso;
  • Participou do Concílio de Niceia;
  • Defendeu a fé contra a heresia ariana;
  • Foi generoso com os pobres;
  • Tornou-se símbolo da caridade alegre e discreta.

Sua fama de benfeitor não nasce do mito, mas da vida concreta: ele encarnou o mandato de Cristo de “curar, purificar e libertar”.

São Nicolau é, portanto, pastor que viu a multidão, compreendeu sua necessidade, e deu de graça aquilo que havia recebido de Deus. Ele é um modelo singular para clérigos e para todos os fiéis: um homem de fé firme e caridade ardente, que não separou doutrina e misericórdia, verdade e amor, oração e serviço.

Nesse sentido, São Nicolau se torna ponte entre a primeira leitura, o salmo e o Evangelho:

  • Como Isaías anunciou, Nicolau foi sinal de um Deus que “não mais se esconde”.
  • Como o salmo canta, foi instrumento de cura e reconstrução.
  • Como o Evangelho exige, foi enviado para curar e libertar a partir da compaixão de Cristo.

O tema central da liturgia de hoje é a compaixão de Deus. E esta compaixão não é sentimento, mas ação. Deus não olha a miséria humana com distanciamento; Ele a assume, Ele se envolve, Ele age para curar.

A teologia cristã sempre compreendeu Cristo como o Médico divino, aquele que desce à condição humana para restaurar o que foi ferido. Em Cristo, Deus se faz próximo, e essa proximidade é salvadora. Ele toca os olhos cegos, toca a pele leprosa, toca o coração ferido.

Mas Cristo continua a fazer isso hoje — através da Igreja.
A Igreja, sacramento de Cristo no mundo, é chamada a continuar esta missão de cura. Quando cura, é Cristo que cura; quando acolhe, é Cristo que acolhe; quando perdoa, é Cristo que perdoa.

Isso implica uma grande responsabilidade pastoral. A Igreja não pode ser fria, burocrática, moralista ou distante; ela deve ser, como Cristo, movida de compaixão. A evangelização não pode ser um discurso; deve ser um gesto que nasce do amor que realmente olha para a dor do outro.

O mundo de hoje clama por essa compaixão. Há muitas feridas:

  • feridas psicológicas,
  • feridas afetivas,
  • feridas familiares,
  • feridas sociais,
  • feridas espirituais.

Há doenças visíveis e invisíveis. Há multidões “cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”. Nunca como hoje a missão da Igreja foi tão urgente: curar, libertar, ressuscitar, purificar.

A liturgia de hoje nos pede para revermos nossa postura diante de três realidades:

a) A confiança em Deus

Como Israel, muitas vezes buscamos seguranças fora de Deus. Confiamos em poder, dinheiro, estratégias, aparências. Isaías nos lembra:
A verdadeira segurança vem do Senhor, que nunca abandona.

b) A compaixão ativa

O Evangelho nos pergunta:

  • Temos compaixão?
  • Vemos a dor dos outros?
  • Ou passamos apressadamente?

O mundo moderno sofre de “anestesia espiritual”: vemos, mas não sentimos; sabemos, mas não nos movemos.

c) A gratuidade da vida cristã

“De graça recebestes, de graça dai.” Esta é a essência da espiritualidade cristã.
Quem recebeu amor deve amar;
Quem recebeu perdão deve perdoar;
Quem recebeu cura deve curar;
Quem recebeu consolação deve consolar.

Queridos irmãos e irmãs, a liturgia de hoje é convite à conversão do coração. Cristo continua a olhar o mundo com compaixão e continua a dizer:

“A messe é grande… Ide!”

Que possamos, como São Nicolau, ser pastores e discípulos movidos de compaixão, cheios de gratuidade, instrumentos de cura, de reconciliação e de esperança.

Que o Deus que promete em Isaías “não se esconder mais” se manifeste hoje através de nós.

Que o Senhor, que “cura os corações atribulados”, cure também as nossas feridas.

E que Cristo, o Médico divino, faça de cada um de nós colaboradores da sua obra de salvação, para que o mundo ferido encontre, através do nosso testemunho, o Deus que cura, guia e salva.

Amém.

 LUCAS HENRIQUE LORSCHEIDER


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