A graça Divina não deve ser adiada | Dom Lucas Henrique Lorscheider

 


Liturgia Diária
Domingo 2ª Semana do Advento

Amados irmãos e irmãs em Cristo,
celebramos hoje o Segundo Domingo do Advento, este tempo santo no qual a Igreja, Mãe e Mestra, nos conduz pela mão para dentro do mistério do Deus que vem. O Advento é o tempo da expectativa vigilante, da esperança teologal que se apoia não em cálculos humanos, mas na fidelidade irreversível de Deus às suas promessas. E hoje a liturgia nos apresenta uma tríade espiritual: a esperança messiânica, a conversão radical e a missão renovada da Igreja. Estas três dimensões, unidas entre si, formam o coração da Palavra que hoje meditamos.

Isaías, profeta da consolação, nos apresenta a imagem que abre esta liturgia:
“Nascerá uma haste do tronco de Jessé, e a partir da raiz surgirá um rebento.”

É uma das imagens mais belíssimas da Escritura. O tronco cortado de Jessé, pai de Davi, representa a dinastia davídica aparentemente destruída pelo pecado, pela infidelidade, pelas invasões e pela sucessão de reis que não conduziram o povo segundo o coração de Deus. O tronco está seco, reduzido a quase nada. A lógica humana diria: acabou. Mas a lógica divina diz: ainda não terminei.

Deus é especialista em ressuscitar esperanças onde o ser humano vê apenas ruínas.
É assim com Israel, assim com a Igreja, assim com cada família, assim com cada coração.

O broto que surge é o Messias, nosso Senhor Jesus Cristo, no qual repousa a plenitude dos dons do Espírito: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor do Senhor. Estes dons não são fragmentos, mas uma harmonia perfeita, uma plenitude que, somente em Cristo, encontra sua expressão total.

A profecia continua com imagens escatológicas que descrevem não apenas uma época histórica, mas o ideal messiânico do Reino:
– o lobo habitando com o cordeiro;
– o bezerro e o leão comendo juntos;
– a criança brincando junto ao esconderijo da serpente.

Essas imagens representam uma realidade profunda: a reconciliação universal, a restauração de todas as relações feridas pelo pecado — relações humanas, relações sociais, relações ecológicas e relações espirituais. Onde Cristo reina, o que antes era oposição se torna harmonia; o que antes era ameaça se torna comunhão; o que antes era morte se transforma em vida.

Em nossos dias, o tronco cortado reaparece em tantas formas: – famílias fragmentadas,
– vocações feridas,
– comunidades cansadas,
– jovens desesperançados,
– uma sociedade que perdeu o sentido da transcendência,
– cristãos que mantêm práticas religiosas, mas não vida interior.

Contudo, a liturgia nos recorda: Deus continua fazendo brotar vida nova onde tudo parecia perdido.
Este broto exige que olhemos para a realidade com os olhos da fé, não do desespero. O Advento é o tempo em que reaprendemos a esperar, não de braços cruzados, mas com o coração aberto à ação de Deus.

O Salmo responsorial nos apresenta o Rei Messias como Aquele que governa com justiça e defende o pobre. O refrão diz: “Nos seus dias a justiça florescerá e grande paz até que a lua perca o brilho.”

Este salmo é uma ponte entre Isaías e o Evangelho. Ele descreve o Messias não como um conquistador militar, mas como o Rei da Justiça e da Paz, aquele que protege os pequenos, escuta os fracos e luta pelos esquecidos. A justiça aqui não é mera justiça humana, mas a justiça divina que coloca cada coisa em seu lugar original.

Quantos hoje esperam uma justiça verdadeira, em meio a sistemas sociais muitas vezes marcados por corrupção, privilégios e desigualdades?
Mas a justiça do Messias começa na conversão do nosso coração. A paz do Reino nasce primeiro dentro da alma de quem se entrega a Deus.
A primeira reforma que Cristo quer realizar é a reforma interior.

São Paulo, na segunda leitura, nos oferece o fundamento teológico: a esperança gerada pela Palavra de Deus.
Diz o Apóstolo:
“Tudo o que outrora foi escrito, foi escrito para nossa instrução, para que, pela constância e pelo conforto que as Escrituras nos dão, tenhamos esperança.”

O cristão autêntico é sempre um homem de esperança, não otimismo superficial, mas esperança teologal. O otimismo é humano: depende do clima, das notícias, da fase que estamos vivendo.
A esperança é divina: independe das circunstâncias e nasce do encontro com o Deus fiel.

Paulo nos lembra também da universalidade da salvação: Cristo veio para salvar não apenas Israel, mas todos os povos, reunidos numa só família. O Advento é, portanto, tempo missionário: a Igreja não pode manter o Evangelho apenas dentro das sacristias; ela é enviada para que todos experimentem a misericórdia divina.

Entramos agora no ponto alto da liturgia: a figura gigantesca de João Batista, o Precursor.

João não aparece nos palácios, mas no deserto.
Não se veste com roupas elegantes, mas com pele de camelo.
Não oferece discursos agradáveis, mas palavras afiadas como espada.
Por quê?
Porque João não é fruto de um sistema humano; é o eco da voz de Deus que se levanta quando o mundo se esquece de escutar.

A mensagem de João é clara e urgente:
“Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo!”

Não é um convite educado; é um alerta, um grito, um chamado ao despertar. João sabe que a conversão não é um detalhe, não é uma mudança moral isolada.
Conversão é mudança de rumo, mudança de mentalidade, mudança de coração, mudança de vida.

João anuncia também o juízo:
– o machado já está posto à raiz das árvores;
– o trigo será guardado, mas a palha será queimada;
– o Messias trará o batismo no Espírito Santo e no fogo.

Aqui encontramos uma dimensão muitas vezes esquecida: Deus é amor, mas também é justiça. O Advento não é apenas preparação para a suavidade do presépio, mas também para a verdade purificadora de Cristo que virá “para julgar os vivos e os mortos”.

O Evangelho nos revela que João dirige palavras duríssimas aos fariseus e saduceus, não por ódio, mas para arrancá-los da hipocrisia espiritual. Ele denuncia uma religião sem vida interior, uma fé de aparências, uma prática religiosa que não toca o coração.

Quantos hoje vivem exatamente assim?
– Missas sem conversão,
– devoções sem caridade,
– discursos cristãos sem vida cristã,
– casas com crucifixos nas paredes, mas sem Cristo no cotidiano.

João é a voz que desperta a consciência e prepara o caminho do Senhor.

Vivemos num mundo marcado por: – relativismo moral;
– ideologias que substituem Deus por ídolos humanos;
– perda do senso do sagrado;
– pressa e superficialidade;
– vidas fragmentadas e vazias.

O Advento nos chama a uma conversão que envolve três dimensões:

1. Conversão do olhar

Reconhecer onde Deus está agindo e onde não está.
Desaprender os olhares mundanos que reduzem a vida espiritual ao mínimo.

2. Conversão da mente

Mudar os pensamentos, rejeitar mentiras culturais, purificar critérios e julgamentos.
Como diz São Paulo, “não vos conformeis com este mundo” (Rm 12,2).

3. Conversão do coração

Perdoar, renunciar a vícios, abandonar pecados escondidos, curar feridas, buscar a confissão sacramental.

Sem estas conversões, o Advento corre o risco de ser apenas um tempo comercial, sentimental ou nostálgico — e não um tempo espiritual.

A Igreja é chamada a ser a voz que clama no deserto moderno.
E qual é o deserto de hoje?
O deserto hoje é: – o secularismo sem horizonte,
– o hedonismo que anestesia,
– a cultura da indiferença,
– a vida líquida e instável,
– a perda do sentido de eternidade.

A Igreja precisa anunciar como João:
Cristo está chegando. Preparai o caminho. Endireitai as veredas.
Não com moralismos vazios, mas com testemunho, santidade e ardor missionário.

O mundo não precisa de cristãos mornos, mas de almas inflamadas pelo Espírito.

No Advento, contemplamos não apenas o Cristo que veio em Belém, mas também o Cristo que virá na glória.
Vivemos entre essas duas vindas: a primeira na humildade, a última na majestade.

Nesse intervalo, a vida cristã é sustentada pela esperança.
E esperança verdadeira produz três frutos:

1. Paciência ativa

Não é passividade, mas perseverança.

2. Alegria profunda

Não alegria superficial, mas aquela que nasce da certeza de ser amado por Deus.

3. Caridade missionária

Quem espera o Senhor se torna sinal de Deus no mundo.

Os santos são luzes que brilham no Advento.
Eles nos mostram que a conversão não é uma ideia abstrata, mas vida concreta.

Neste domingo, recordando a espiritualidade do Advento, podemos olhar para santos que foram verdadeiras vozes de Deus na história. Cada um deles, à sua maneira, se tornou eco do Batista, preparando o caminho do Senhor em sua época.
Eles nos lembram que a santidade não é para poucos, mas para todos, e que é possível viver de modo radical o Evangelho mesmo num mundo que grita o contrário.

1. Em nossas famílias

O Advento nos chama à reconciliação:
perdoar, escutar, recomeçar.
Que cada lar se torne um presépio vivo.

2. Em nossas paróquias

Precisamos de comunidades que não sejam clubes sociais, mas verdadeiras escolas de santidade, oração e caridade.

3. Em nossa vida pessoal

É tempo de: – intensificar a oração,
– meditar mais a Palavra,
– confessar com sinceridade,
– renunciar ao pecado,
– praticar obras de misericórdia.

4. Na sociedade

O cristão é chamado a ser luz no ambiente de trabalho, na universidade, no governo, na vida pública.
Não com ativismos ideológicos, mas com amor, verdade e coerência.

Se vivermos este Advento verdadeiramente, o fruto será um coração mais sensível a Deus, mais disponível ao Espírito, mais atento às necessidades dos pobres, mais preparado para acolher o Cristo que vem.

O broto de Jessé continua surgindo hoje: – em cada conversão sincera,
– em cada perdão oferecido,
– em cada gesto de caridade,
– em cada Eucaristia celebrada,
– em cada oração humilde que sobe ao céu.

Queridos irmãos, a liturgia hoje nos convoca como João Batista convocou a multidão:

Não adiem a conversão. Não adiem a graça.
O Reino está próximo.
A salvação está às portas.
O Senhor vem — e quer encontrar um coração novo.

Não permitamos que este Advento passe como tantos outros, marcados apenas por compras, luzes e pressa.
Vivamos este tempo como tempo de salvação, tempo de recomeço, tempo de graça.

Que a Virgem Maria, Filha de Sião e Estrela da Manhã do Advento, nos conduza pela mão até o encontro com seu Filho.
Que ela, que guardou a Palavra no coração com total docilidade, nos ajude a fazer do nosso coração uma manjedoura viva onde Cristo possa nascer.

Cristo está vindo.
Não vem apenas para Belém, mas para o íntimo de nossa vida.
Não vem apenas julgar, mas salvar, restaurar, transformar.

Preparemos o caminho.
Abramos as portas.
Endireitemos as veredas.
Purifiquemos o coração.
Vivamos a esperança.
Sejamos luz no mundo.

E então, no silêncio da noite santa, quando Deus nascer de novo no tempo, Ele encontrará em nós não um deserto, mas um jardim preparado com amor.

Amém.

 LUCAS HENRIQUE LORSCHEIDER

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