Amados filhos e filhas na fé,
“O zelo por tua casa me devora” (Sl 69,10; Jo 2,17). Esta palavra da Sagrada Escritura ressoa com particular força em meu coração de pastor e inspira o título desta carta pastoral: Zelus Domini. Dirijo-me a vós movido por uma santa urgência, consciente de que o tempo presente exige clareza, coragem e fidelidade sem concessões. Não escrevo para agradar sensibilidades frágeis nem para acomodar-me ao espírito do mundo, mas para reafirmar, com vigor episcopal, a centralidade absoluta da glória de Deus na vida da Igreja e na missão evangelizadora.
O zelo do Senhor não é um sentimento passageiro, nem um entusiasmo superficial. Trata-se de uma virtude profundamente teológica, enraizada no amor ardente a Deus, na reverência pela sua santidade e no compromisso total com a verdade revelada. Onde há verdadeiro zelo, não há indiferença; onde há zelo autêntico, não há tibieza; onde o zelo arde, o pecado é combatido, a fé é defendida e a missão é assumida como combate espiritual.
Vivemos tempos em que o zelo pela glória de Deus foi substituído, não raramente, pelo zelo pela aprovação humana. Muitos preferem o aplauso do mundo ao juízo de Deus, a acomodação pastoral à exigência evangélica, a diplomacia ambígua à clareza da verdade. Contra essa mentalidade, levanto minha voz pastoral para recordar que a Igreja não existe para agradar ao mundo, mas para convertê-lo; não existe para refletir a mentalidade dominante, mas para transformá-la à luz do Evangelho.
O próprio Cristo é o modelo supremo do Zelus Domini. Ao expulsar os vendilhões do Templo, Ele manifesta que a casa de seu Pai não pode ser profanada nem reduzida a espaço de interesses humanos. Esse gesto não foi um excesso emocional, mas um ato profético, profundamente ordenado à restauração da verdadeira adoração. Assim também hoje, a Igreja é chamada a purificar seus espaços, suas práticas e seus discursos de tudo aquilo que obscurece a glória de Deus.
O zelo pela casa do Senhor manifesta-se, antes de tudo, no culto divino. A Sagrada Liturgia não é um laboratório de experimentações pessoais, nem um palco para protagonismos humanos. Ela é o lugar onde o céu toca a terra, onde o Sacrifício redentor de Cristo se torna presente sacramentalmente. Onde o zelo se enfraquece, o sagrado se banaliza; onde o zelo desaparece, a liturgia se transforma em espetáculo. Por isso, reafirmo com firmeza: cuidar da liturgia é cuidar da fé do povo.
O Zelus Domini exige fidelidade integral à doutrina da Igreja. Não há verdadeiro amor a Deus sem amor à verdade. A caridade sem verdade degenera em sentimentalismo; a verdade sem caridade torna-se dureza estéril. O zelo autêntico mantém unidas estas duas dimensões. Em um contexto de confusão doutrinal, no qual verdades fundamentais da fé são relativizadas ou silenciadas, o zelo exige que os pastores falem com clareza, mesmo quando isso gera incompreensão ou oposição.
Como bispo, sinto o peso da responsabilidade de guardar o depósito da fé. Não me é lícito adaptar a doutrina às pressões culturais, nem omitir aspectos exigentes do Evangelho em nome de uma falsa misericórdia. A misericórdia verdadeira não nega o pecado, mas oferece o caminho da conversão. O zelo pastoral não consiste em confirmar o homem em seus erros, mas em conduzi-lo, com paciência e firmeza, à verdade que liberta.
O Zelus Domini é inseparável da dimensão penitencial da vida cristã. Onde não há espírito de penitência, o zelo se extingue. A cruz, hoje tão frequentemente evitada, permanece o critério supremo do discipulado. Uma Igreja que foge da cruz perde sua força profética; um cristão que evita o sacrifício perde a alegria profunda do seguimento de Cristo. Reafirmo, portanto, a necessidade de recuperar práticas penitenciais autênticas, pessoais e comunitárias.
Este zelo manifesta-se também na defesa da moral cristã. Em uma sociedade que normaliza o pecado e ridiculariza a virtude, é dever da Igreja proclamar, sem ambiguidade, a beleza da lei moral. Não se trata de moralismo estéril, mas da defesa da dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus e chamada à santidade. O zelo pastoral exige que não nos calemos diante de legislações injustas, de costumes degradantes e de ideologias que atentam contra a ordem natural querida pelo Criador.
O Zelus Domini é profundamente mariano. A Virgem Santíssima é o ícone perfeito do zelo silencioso e total. Em Maria não há divisão, não há reservas, não há concessões. Seu “fiat” é absoluto, irrevogável, pleno. Quem deseja servir a Deus com zelo ardente deve colocar-se sob a escola de Maria, aprendendo com Ela a obediência pronta, a pureza de intenção e a coragem nas horas decisivas.
Este zelo possui também uma dimensão eclesial clara. Amar a Deus implica amar a Igreja, Corpo Místico de Cristo. Não se pode separar Cristo de sua Igreja, nem a fé pessoal da comunhão eclesial. O zelo verdadeiro gera obediência, respeito à hierarquia legítima e comunhão com o Sucessor de Pedro. Toda forma de zelo que se afasta da obediência e da unidade não vem do Espírito Santo.
Dirijo uma palavra especial aos que exercem ministérios e serviços na Igreja. Sacerdotes, diáconos, religiosos e leigos comprometidos: o zelo que vos foi confiado não é propriedade pessoal, mas dom a ser administrado com fidelidade. Evitai a rotina espiritual, o ativismo vazio e a acomodação pastoral. Renovai diariamente o fervor da vossa vocação, lembrando-vos de que fostes escolhidos para coisas grandes, não para a mediocridade.
A juventude ocupa lugar particular em meu coração pastoral. Os jovens não precisam de uma Igreja diluída, mas de uma Igreja exigente, capaz de propor ideais elevados. O Zelus Domini fala ao coração jovem porque convoca ao heroísmo, ao combate espiritual e à entrega total. Onde se oferece grandeza, os jovens respondem; onde se oferece mediocridade, eles se afastam.
O zelo pela glória de Deus impulsiona a missão evangelizadora. Não podemos guardar para nós o tesouro da fé. A evangelização não é proselitismo agressivo, mas anúncio corajoso da verdade salvadora. Em um mundo marcado pelo relativismo, o zelo missionário exige clareza de identidade. Só anuncia com convicção quem crê profundamente; só convence quem vive o que anuncia.
O Zelus Domini possui também uma dimensão escatológica. Vivemos à luz da eternidade. Cada decisão, cada palavra, cada omissão tem peso eterno. O zelo recorda-nos que não fomos criados para este mundo passageiro, mas para a glória eterna. Uma Igreja sem horizonte escatológico perde o senso da urgência missionária e se acomoda ao imediato.
Não ignoro as resistências que uma palavra firme pode provocar. Contudo, prefiro a fidelidade que fere ao silêncio que trai. O zelo pastoral não é dureza de coração, mas amor exigente. Como bispo, não posso abdicar da missão de ensinar, santificar e governar segundo o coração de Cristo, mesmo quando isso implica incompreensão.
Confio esta carta pastoral à intercessão de São Miguel Arcanjo, defensor da glória de Deus, e de todos os santos que, ao longo da história, consumiram-se pelo Zelus Domini. Que seu exemplo reacenda em nós o fogo sagrado que purifica, ilumina e transforma.
Concluo exortando-vos: não apagueis o Espírito. Guardai o zelo. Defendei a fé. Servi a Deus com coração indiviso. Que a glória do Senhor seja o critério supremo de toda ação eclesial.
Dado com autoridade pastoral e esperança firme,
Sob o patrocínio da Santíssima Virgem Maria, Rainha dos Corações, e de São João Apóstolo e Evangelista, patrono dos consagrados Arautos do Evangelho.
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