Carta Pastoral | Maria, Eucaristia e o Papado

 

ASSOCIAÇÃO ARAUTOS DO EVANGELHO 


DOM VICTOR KERNICKI SCOGNAMIGLIO 
POR MERCÊ DE DEUS E DA SANTA SÉ APOSTÓLICA
BISPO TITULAR DE MAURIANA
BISPO ELEITO DO GRÃO PARÁ
SUPERIOR GERAL DA ASSOCIAÇÃO DE DIREITO DIOCESANO ARAUTOS DO EVANGELHO

CARTA PASTORAL

Amados filhos e filhas em Nosso Senhor Jesus Cristo,

Com o coração de pastor, profundamente consciente da gravidade dos tempos que atravessamos e da sublime esperança que jamais decepciona, dirijo-me a todos vós para refletir, com clareza doutrinal, firmeza espiritual e ardor apostólico, sobre o serviço e a missão dos Arautos do Evangelho na Igreja e no mundo. Faço-o não como mero observador externo, mas como bispo que reconhece, acompanha, discerne e confirma carismas suscitados pelo Espírito Santo para a edificação do Corpo Místico de Cristo.

Vivemos uma época marcada por profundas crises: crise de fé, crise de identidade, crise de autoridade, crise de sentido. O homem contemporâneo, saturado de informações e carente de sabedoria, afastou-se das fontes vivas da Verdade, trocando o esplendor do Evangelho por sucedâneos frágeis e ilusórios. É precisamente neste contexto que a Providência divina suscitou, no seio da Santa Igreja, a Associação Internacional de Fiéis Arautos do Evangelho, como resposta concreta, visível e militante às necessidades espirituais do nosso tempo.

Os Arautos do Evangelho não são um movimento entre outros, nem uma simples iniciativa pastoral circunstancial. Eles constituem uma realidade eclesial dotada de um carisma específico, reconhecido e aprovado pela Santa Sé, que se expressa numa síntese harmoniosa entre contemplação e ação, entre fidelidade absoluta à Tradição da Igreja e audácia missionária diante dos desafios do mundo moderno.

A missão dos Arautos é, antes de tudo, cristocêntrica. Eles existem para anunciar Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre, como único Salvador da humanidade. Não um Cristo diluído, relativizado ou adaptado aos gostos do mundo, mas o Cristo total, o Verbo Encarnado, Crucificado e Ressuscitado, Rei do Universo, Senhor da História e Juiz dos vivos e dos mortos. Este anúncio é feito com palavras claras, com símbolos eloquentes, com beleza litúrgica e, sobretudo, com o testemunho coerente de uma vida inteiramente consagrada a Deus.

O serviço que os Arautos prestam à Igreja manifesta-se, de modo particular, na restauração do senso do sagrado. Em tempos nos quais a banalização do culto divino produziu feridas profundas na alma do povo fiel, os Arautos se levantam como sentinelas da sacralidade, recordando que a Liturgia não é propriedade dos homens, mas ação de Cristo e da Igreja. Sua atenção rigorosa às normas litúrgicas, seu amor à música sacra, à arquitetura, à arte e aos símbolos não são esteticismo vazio, mas expressão concreta da fé na presença real de Deus e na dignidade do culto que Lhe é devido.

Outro eixo fundamental da missão dos Arautos é a devoção filial e ardente à Santíssima Virgem Maria. Não há Arauto do Evangelho sem um profundo amor a Nossa Senhora. Maria é para eles Mestra, Mãe e Rainha. Sob sua proteção, os Arautos aprendem a obedecer sem reservas, a crer contra toda esperança e a perseverar mesmo nas horas de provação. A escravidão de amor à Virgem Santíssima, vivida segundo a mais pura tradição mariana da Igreja, forma almas fortes, equilibradas e inteiramente disponíveis para o serviço do Reino de Deus.

O apostolado dos Arautos estende-se a múltiplos campos: missões populares, formação catequética, evangelização da juventude, promoção vocacional, assistência espiritual, cultura católica, comunicação social e presença pública. Em todos esses âmbitos, eles atuam com disciplina, hierarquia, espírito de corpo e obediência eclesial. Não há improvisação nem ativismo desordenado, mas planejamento, oração, estudo e ação coordenada.

Desejo sublinhar, com particular vigor, o papel dos Arautos na formação da juventude. Em um mundo que oferece aos jovens apenas horizontes estreitos e propostas medíocres, os Arautos apresentam ideais elevados, exigentes e belos. Eles não têm medo de falar de sacrifício, de pureza, de heroísmo, de entrega total. E é precisamente por isso que tantos jovens, sedentos de grandeza, encontram neles um caminho seguro para uma vida plena, ordenada e fecunda.

A firmeza que caracteriza o espírito dos Arautos não deve ser confundida com rigidez estéril ou fechamento ao diálogo. Trata-se, antes, de uma firmeza enraizada na Verdade objetiva, que não se negocia nem se adapta às modas passageiras. Em tempos de confusão doutrinal e moral, esta firmeza é um serviço precioso à Igreja, pois oferece aos fiéis referências claras, seguras e confiáveis.

Como bispo, afirmo com convicção: a Igreja não precisa de menos identidade, mas de mais identidade; não precisa de menos doutrina, mas de mais doutrina; não precisa de menos sacralidade, mas de mais sacralidade. E é exatamente neste sentido que o carisma dos Arautos do Evangelho se revela profundamente atual e necessário.

Não ignoro que, como toda obra verdadeiramente evangélica, os Arautos enfrentam incompreensões, críticas e até perseguições. Isso não deve surpreender. O próprio Senhor advertiu que o discípulo não é maior que o Mestre. Quando uma obra incomoda, quando provoca reações, é sinal de que toca em feridas reais e confronta o espírito do mundo. Minha palavra, neste ponto, é de encorajamento: permanecei firmes, fiéis, obedientes e confiantes na ação da graça.

Exorto também os pastores a acolherem, discernirem e acompanharem o serviço dos Arautos com espírito de comunhão eclesial. Eles não vêm para substituir o clero local, mas para colaborar, enriquecer e fortalecer a ação pastoral das dioceses e paróquias. Onde são bem acolhidos, os frutos espirituais são abundantes: aumento da prática sacramental, despertar vocacional, renovação da vida litúrgica e aprofundamento da fé do povo.

A dimensão comunitária da vida dos Arautos merece igualmente destaque. Em uma sociedade marcada pelo individualismo e pela fragmentação, eles testemunham que é possível viver a fraternidade evangélica de modo concreto, estruturado e duradouro. Sua vida comum, regulada por estatutos claros e por uma autoridade legítima, é um sinal profético de que a comunhão não é utopia, mas vocação possível quando Cristo é o centro.

Não posso deixar de mencionar a importância da formação intelectual sólida promovida pelos Arautos. Eles compreendem que não há verdadeira evangelização sem formação séria. O estudo da Sagrada Escritura, da Teologia, do Magistério da Igreja, da Filosofia e da História não é acessório, mas parte integrante da missão. Em um mundo que relativiza a verdade, formar inteligências católicas bem estruturadas é um serviço inestimável.

Dirijo-me, de modo especial, aos membros dos Arautos do Evangelho: sede fiéis ao carisma que recebestes. Não o diluais, não o negocieis, não o acomodeis. A Igreja precisa de vossa identidade plena, não de versões atenuadas. Guardai com zelo a vossa disciplina, a vossa vida espiritual, a vossa obediência e o vosso amor à Igreja e ao Papa. A fecundidade da vossa missão depende diretamente da vossa fidelidade.

Ao mesmo tempo, recordo-vos que toda firmeza deve ser acompanhada de profunda humildade. Somos servos inúteis; tudo o que fazemos é graça. Evitai toda forma de autossuficiência ou espírito de elite. O verdadeiro Arauto é aquele que aponta para Cristo e desaparece, que serve sem buscar reconhecimento, que sofre em silêncio e persevera na alegria.

Aos fiéis leigos que colaboram com os Arautos ou participam de seus apostolados, deixo uma palavra de gratidão e exortação. Vossa participação é essencial. A missão dos Arautos não se limita aos seus membros consagrados, mas se estende a todos aqueles que, de algum modo, se deixam formar por este carisma e se comprometem com a evangelização. Sede testemunhas coerentes no meio do mundo, levando a fé para as famílias, os ambientes de trabalho, a cultura e a vida social.

Contemplando o futuro, vejo com esperança o papel que os Arautos do Evangelho ainda desempenharão na história da Igreja. Em um tempo de purificação e provação, Deus suscita instrumentos fortes para sustentar o edifício espiritual. Estou convicto de que, se permanecerem fiéis, os Arautos serão cada vez mais chamados a missões exigentes, a campos difíceis e a tarefas de grande responsabilidade.

Confio esta obra, mais uma vez, à proteção da Santíssima Virgem Maria, Rainha dos Arautos do Evangelho. Que Ela vos cubra com seu manto, vos ensine a amar a Igreja com coração indiviso e vos conduza sempre ao seu Divino Filho. Que São Miguel Arcanjo, príncipe das milícias celestes, vos defenda nas batalhas espirituais do nosso tempo.

Concluo esta carta pastoral com uma palavra clara e serena: o serviço e a missão dos Arautos do Evangelho são um dom para a Igreja. Um dom que deve ser acolhido, protegido e promovido. Como bispo, reafirmo meu apoio, minha estima e minha oração por todos aqueles que, sob este carisma, se dedicam inteiramente à causa do Evangelho.

Permanecei firmes. Permanecei fiéis. Permanecei ardorosos.

Dado em espírito de comunhão e esperança,

Sob o patrocínio da Santíssima Virgem Maria, Rainha dos Corações, e de São João Apóstolo e Evangelista, patrono dos consagrados Arautos do Evangelho.

DOM VICTOR KERNICKI SCONAMIGLIO 
Superior Geral

 LUCAS HENRIQUE LORSCHEIDER
Chanceler pro Tempore

Post a Comment

Postagem Anterior Próxima Postagem