Amados irmãos e irmãs em Cristo,
Celebramos hoje, com piedosa alegria e profunda gratidão, a memória facultativa de São João Diego Cuauhtlatoatzin, o humilde indígena mexicano que foi escolhido pela Virgem Santa Maria de Guadalupe para receber sua mensagem maternal aos povos das Américas. Sua figura, tão marcada pela simplicidade, obediência e pureza de coração, ilumina de modo singular as leituras que hoje a Igreja nos propõe: o anúncio consolador do profeta Isaías, o canto jubiloso do Salmo 95 e a parábola do Bom Pastor que não se conforma com perder sequer uma única ovelha.
Neste Advento, tempo sagrado de espera e conversão, João Diego torna-se para nós um mestre silencioso que nos recorda que Deus age preferencialmente através dos pequenos, dos humildes, dos que se fazem dóceis à Sua Palavra. E justamente isso é o que ouvimos hoje nas Escrituras: um Deus que se inclina, que consola, que vem com poder mas com ternura, que busca a ovelha perdida e que jamais desiste de nós.
A primeira leitura, retirada do capítulo 40 do profeta Isaías, inaugura aquilo que tradicionalmente é chamado de “Livro da Consolação”. Depois de longos capítulos denunciando infidelidades e anunciando o exílio, Deus muda o tom: o tempo da punição passou; chega o tempo do consolo.
“Consolai o meu povo, consolai”, diz o Senhor.
Que palavra extraordinária para nós, neste tempo em que tantos corações se encontram feridos, desanimados, esgotados pelas provações da vida contemporânea!
O verbo “consolar”, na Bíblia, não significa simplesmente oferecer conforto emocional: significa recriar, reerguer, dar novamente fundamento à esperança. Por isso Deus afirma:
“Falai ao coração de Jerusalém.”
Não basta falar a Jerusalém; é preciso falar ao coração, ao centro da vida, ao lugar onde a pessoa decide seus caminhos.
O Advento é este tempo de Deus falar ao nosso coração, abrir um espaço novo dentro de nós para que a esperança volte a florescer. E João Diego é um testemunho vivo de alguém cujo coração humilde foi capaz de acolher a visita do Céu.
Isaías continua:
“Preparai no deserto o caminho do Senhor.”
O deserto é imagem clássica da pobreza, do despojamento, do lugar onde tudo é radicalizado. Mas é também o lugar da manifestação de Deus.
João Diego conheceu esse “deserto interior”: sua pobreza, sua simplicidade, sua invisibilidade social na época — um indígena humilde, sem instrução, aparentemente sem importância. Mas foi exatamente assim, descalço de si mesmo, que ele pôde se tornar estrada aberta para a mensagem do Céu.
A Virgem Santa Maria de Guadalupe o encontrou enquanto ele caminhava para ouvir a Missa. E ela lhe disse:
“Sabe e entende, meu filho mais pequeno, que eu sou a sempre Virgem Maria, Mãe do Deus verdadeiro por quem vivemos.”
Ela veio justamente onde havia humildade. Como diz Santo Agostinho:
“Deus se inclina onde não encontra resistência.”
E isto vale para nós hoje. Preparar o caminho do Senhor significa abrir espaço, retirar os escombros, renunciar aos excessos, abandonar as soberbas, cultivar o silêncio — para que Deus possa passar.
Somos tantas vezes como cidades ocupadas por ruídos externos e internos; perdemos a sensibilidade às realidades espirituais. João Diego, porém, ouviu, viu, respondeu.
A leitura culmina numa imagem magnífica:
“Como um pastor, ele apascenta o rebanho... carrega nos braços os cordeirinhos e conduz mansamente as ovelhas que amamentam.”
Essa imagem prepara diretamente o Evangelho.
Mas antes, pergunta: quem são os cordeirinhos?
Na linguagem bíblica, os cordeirinhos são os pequenos, os frágeis, os vulneráveis — e também aqueles que pertencem totalmente ao Senhor.
João Diego foi literalmente carregado nos braços da Mãe de Deus e do Bom Pastor. Ele, que se dizia “um homemzinho” e “cordeirinho fraco”, tornou-se grande aos olhos do Senhor.
Isto nos ensina que Deus ama especialmente aqueles que se reconhecem pequenos. Santa Teresa de Lisieux chamava isso de “pequenez espiritual”, o caminho da infância espiritual. João Diego é um exemplo vivo desta pequenez teológica que abre o céu.
O salmo responsorial, tirado do Salmo 95, convida todo o povo:
“Cantai ao Senhor um cântico novo...
Anunciai entre as nações: ‘O Senhor é Rei!’”
Não há como não pensar na missão de João Diego: por meio dele, a Virgem de Guadalupe gerou um movimento evangelizador imenso. A tilma impressa com sua imagem se tornou anúncio vivo e catequético. Em poucos anos, milhões de indígenas se converteram.
A Igreja reconhece este fenômeno como um dos maiores milagres evangelizadores de toda a sua história. A Virgem, através de um homem humilde, realizou aquilo que nenhum exército e nenhum governante havia conseguido: conquistar corações, não territórios; converter almas, não impor domínio.
Nós, hoje, somos chamados a fazer o mesmo:
anunciar entre as nações, entre nossos ambientes, entre nossas famílias, que o Senhor é Rei.
Mas se o Cristo é Rei de nossas vidas, isso deve aparecer em nossa conduta, nossas escolhas, nossa maneira de amar.
Entramos então no Evangelho, no qual Jesus nos apresenta uma das mais belas parábolas: a da ovelha perdida.
Jesus pergunta:
“Que vos parece? Se alguém tiver cem ovelhas e uma se perder, não deixa as noventa e nove nas montanhas para procurar aquela que se perdeu?”
E conclui:
“Assim, o Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum desses pequeninos.”
Esta é a chave teológica da memória de hoje:
Deus não quer perder ninguém.
A salvação de cada pessoa é preciosa a Seus olhos.
Isaías anunciou que Deus viria como pastor; Jesus explica como esse pastor age: ele busca, insiste, se expõe ao risco, celebra quando encontra.
O Advento, portanto, é tempo de nos deixarmos encontrar.
Cada um de nós se perde de formas diferentes:
- perdemo-nos no pecado,
- perdemo-nos na soberba,
- perdemo-nos no ativismo que nos afasta da oração,
- perdemo-nos na pressa,
- perdemo-nos na tentação da autossuficiência,
- perdemo-nos no desânimo que corrói a fé.
Jesus, porém, não nos deixa no abandono. Ele vem atrás de nós.
João Diego experimentou de modo intenso essa busca de Deus. Ele pensava não ser digno de transmitir a mensagem da Virgem. Queria indicar outro mensageiro mais capaz. Mas o Céu insistiu: é você!
Assim também o Senhor nos diz:
“Eu te quero, eu te busco, eu te escolho.”
Vivemos numa época em que a vida humana, sobretudo a dos mais pobres e indefesos, vale cada vez menos. Há verdadeira “cultura do descartável”, como denuncia o Papa Francisco.
Quando alguém não serve mais, é abandonado.
Quando alguém fracassa, é substituído.
Quando alguém diverge, é excluído.
Quando alguém se torna custoso, é descartado.
Jesus, porém, mostra o contrário:
a pessoa que se perdeu é justamente a que mais merece cuidado.
Aqui está a beleza da parábola: Ele deixa noventa e nove para buscar uma. Aos olhos humanos isso parece irracional. Aos olhos divinos, é amor.
E esse amor se expressou de maneira extraordinária na aparição de Guadalupe. A Virgem veio não aos poderosos, mas aos pobres, não aos sábios, mas aos simples, não aos que tinham prestígio, mas aos que carregavam fardos e sofrimentos coloniais. Veio como Mãe das lágrimas e das esperanças.
Para compreendermos plenamente as leituras, é preciso olhar para a vida de João Diego.
João Diego era um indígena simples, de profunda piedade, que caminhava quilômetros para participar da Missa. Ele tinha um coração dócil, como o cordeirinho que o pastor carrega nos braços. E quando viu a Virgem, não se exaltou. Seu primeiro impulso não foi orgulho, mas preocupação: “Não sou o homem adequado.”
Esta atitude é profundamente evangélica.
É a mesma humildade de Maria:
“Eis aqui a serva do Senhor.”
É a mesma humildade de Isaías:
“Eis-me aqui, envia-me.”
É a mesma humildade da ovelha que se deixa encontrar.
A humildade abre espaço para Deus. A soberba fecha.
Nós, hoje, num mundo tão autocentrado, tão voltado para a autopromoção, somos convidados a recuperar o espírito de João Diego: um coração aberto, obediente, simples, capaz de confiar.
A Virgem lhe confia uma mensagem: construir um templo onde Ela pudesse mostrar seu amor e oferecer misericórdia aos povos.
João Diego obedece.
E assim nasce o Santuário de Guadalupe, um dos maiores centros de peregrinação do mundo. Deus escolheu o pequeno para confundir os grandes.
As leituras de hoje se iluminam mutuamente:
- Isaías anuncia um Deus que consola e conduz como pastor.
- O salmo proclama um Deus Rei que reina pela ternura.
- Jesus revela um Deus que não desiste de ninguém.
- João Diego testemunha um Deus que, por meio da Mãe de Seu Filho, busca reconquistar um povo e evangelizar um continente.
A teologia da misericórdia emerge aqui com força.
E misericórdia, na Bíblia, significa basicamente duas coisas:
- Amor fiel e comprometido – Deus não volta atrás em Sua aliança.
- Inclinação de ternura – Deus se abaixa para nos levantar.
É assim que Ele age conosco. E é assim que somos chamados a agir uns com os outros.
A grande pergunta pastoral é:
Como aplicar tudo isso no mundo contemporâneo?
Apresento algumas reflexões:
O Evangelho nos mostra que Jesus fala. Isaías nos mostra que Deus consola. Mas para ouvir é preciso silêncio.
Vivemos distraídos, fragmentados interiormente. O Advento é tempo de retomar a vida orante. João Diego rezava, caminhava à Igreja, buscava a Deus. Foi por isso que o encontrou.
A maior tentação espiritual de hoje é achar que não precisamos ser cuidados. Que somos autossuficientes. Mas o pastor busca precisamente os que reconhecem sua própria necessidade.
Deixar-se encontrar significa reconhecer-se pecador, frágil, perdido às vezes, e pedir socorro ao Bom Pastor.
Deus diz: “Consolai o meu povo.” Este mandato nos pertence.
Quantas pessoas ao nosso redor vivem feridas, magoadas, cansadas!
Sejamos instrumentos de consolo:
- uma palavra de acolhimento,
- um gesto de carinho,
- um ouvido que escuta,
- um perdão oferecido.
O mundo está sedento de consolação. Devemos dar o que recebemos.
João Diego não era pregador, não era catequista, não era sacerdote.
Mas se tornou evangelizador porque Deus o escolheu.
Evangelizamos pelo testemunho, pela caridade, pela coerência de vida.
A aparição de Guadalupe é profundamente evangelizadora porque revela a ternura divina. A Virgem disse a João Diego:
“Não estou eu aqui, que sou tua Mãe?”
Esta frase resume todo o Evangelho de hoje.
A misericórdia divina se encarna no amor materno de Maria, a “Mãe do verdadeiro Deus por quem se vive”. Ela é participante da missão do Bom Pastor; também ela busca, consola, guia, cura.
E em Guadalupe, ela abraça um povo inteiro.
Hoje, ela nos abraça.
E nos repete:
“Não tenhas medo. Sou tua Mãe. Deixa-Me conduzir-te ao Meu Filho.”
A parábola da ovelha perdida é convite à conversão.
A leitura de Isaías é convite à esperança.
A vida de João Diego é convite à obediência humilde.
O Advento junta tudo isso e nos chama a voltar para casa.
Voltar para casa significa:
- reconciliar-se com Deus,
- confessar-se,
- retomar a oração,
- permitir que Cristo encontre nossas feridas,
- preparar o coração para o Natal.
Enquanto muitos vivem um Advento de compras e correria, a Igreja nos convida a um Advento de sobriedade, silêncio e conversão.
Amados irmãos,
Hoje, com São João Diego, celebremos a certeza de que somos procurados e amados pelo Bom Pastor.
Isaías nos diz que Ele vem com poder, mas também com carinho.
O salmo nos manda cantar com alegria.
O Evangelho nos garante que Ele não se cansa de nos buscar.
E João Diego nos ensina que basta sermos humildes para que Deus realize maravilhas através de nós.
Deixemo-nos encontrar.
Deixemo-nos carregar.
Deixemo-nos consolar.
E, como João Diego, respondamos à Mãe do Céu com humildade e confiança.
Que Nossa Senhora de Guadalupe, Estrela da Evangelização, interceda por nós e nos ensine a abrir os caminhos para o Senhor que vem.
Amém.



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